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domingo, 15 de janeiro de 2017

DOENÇAS e DORES


Há doenças piores que as doenças,

Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós…
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.



(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

ENTRE O SONO E SONHO


Entre o sono e sonho, 

Entre mim e o que em mim 
É o quem eu me suponho 
Corre um rio sem fim. 

Passou por outras margens, 
Diversas mais além, 
Naquelas várias viagens 
Que todo o rio tem. 

Chegou onde hoje habito 
A casa que hoje sou. 
Passa, se eu me medito; 
Se desperto, passou. 

E quem me sinto e morre 
No que me liga a mim 
Dorme onde o rio corre — 
Esse rio sem fim. 


(Fernando Pessoa)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Fernando Pessoa


Tudo vale a pena se a 
alma não é pequena.


(Fernando Pessoa)

NÃO DIGAS NADA !


Não digas nada! 

Nem mesmo a verdade 
Há tanta suavidade em nada se dizer 
E tudo se entender — 
Tudo metade 
De sentir e de ver... 
Não digas nada 
Deixa esquecer 

Talvez que amanhã 
Em outra paisagem 
Digas que foi vã 
Toda essa viagem 
Até onde quis 
Ser quem me agrada... 
Mas ali fui feliz 
Não digas nada. 

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Fernando Pessoa


Custa tanto ser sincero
quando se é inteligente!
É como ser honesto
quando se é ambicioso.


(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO


Não sei quantas almas tenho.

Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.


(Fernando Pessoa)

sábado, 20 de junho de 2015

Poesia de Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


RICARDO REIS foi o segundo heterônimo criado por FERNANDO PESSOA, depois de ALBERTO CAIEIRO e antes de ÁLVARO de CAMPOS - e é o mais clássico de todos eles. Sua odes refletem um espírito duro, rigoroso, que defendia a ausência de desejos e o autodomínio como receita de sabedoria. O rigor de sua postura criou uma poesia precisa, de métrica calculada e enunciação severa. 


Entre seus temas recorrentes podemos citar o do sofrimento diante dos mistérios da vida e da morte e as relações com as suas musas, Lídia, Neera e Cloe. Segundo a avaliação de Pessoa, “Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado”. 

"Poesia é uma música que se faz com idéias", escreveu Reis, "e por isso com palavras". Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui.Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes.Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.


CICERO[N.C.S]

16/06/2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Fernando Pessoa


Não ser é outro ser.



(Fernando Pessoa)

domingo, 12 de abril de 2015

Fernando Pessoa


Quem não vê bem uma palavra,
não pode ver bem uma alma.


(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

AUTOPSICOGRAFIA


O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dr lida sentem bem
Não as duas que ele teve,
Mas só as que ele não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


(Fernando Pessoa)