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segunda-feira, 1 de agosto de 2016
MADRUGADA
Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite
a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes
(Ferreira Gullar)
domingo, 10 de abril de 2016
sábado, 19 de setembro de 2015
Em Alguma parte Alguma (Ferreira Gullar)
Este "Em alguma parte alguma" é seu mais recente livro de poemas publicado (o livro saiu um par de meses depois do comunicado de que ele vencera o prêmio Camões neste ano, o ano de seus oitenta anos, coisa boa). A edição é muito bem cuidada. O livro inclui uma bibliografia completa de sua obra e dois textos assinados por especialistas em Gullar: Alfredo Bosi e Antonio Carlos Secchin.
Os poemas são variados, na forma e na extensão. Há temas recorrentes: a gênese mesma da poesia, a desordem, os sentidos, a natureza, gatos, ossos, memória, a rua duvivier, a podridão e os ossos, a pedra.
Ferreira Gullar não declama, não enfeita. Ele simplesmente relata. Isto mesmo, eu diria que é um relato poético do que vê, sente, lembra, deseja, pensa, ri, chora e se impressiona. Enfim, é tudo de bom. O estilo é genial e rebelde. Não está nem aí para o pudor ou para o que os "outros" pensem sobre ele. Foi esta a impressão que fiquei.
Ferreira Gullar afirma que o seu poema nasce do “espanto”, quando inesperadamente depara-se com um aspecto inesperado do real e, a partir daí, vão se sucedendo os poemas, até que a motivação se esgote. Isso explica a recorrência de determinados temas, que, tempos depois, voltam a ganhar atualidade.
CICERO[N.C.S]
19/09/2015
sábado, 15 de agosto de 2015
TRADUZIR-SE
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
(Ferreira Gullar)
quarta-feira, 22 de abril de 2015
O QUE SE FOI
O que se foi
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.
Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.
Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.
Então porque me faz
o coração bater forte?
(Ferreira Gullar)
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